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terça-feira, 19 de maio de 2009

POÉTICA DO CANCIONEIRO POPULAR

Diferente do que acontece com o cinema e outras artes, a música brasileira é reconhecidamente uma das melhores do mundo. Natural, então, que surjam documentários sobre gente como Vinicius de Morais, Tom Zé e Dorival Caymmi, sem falar nas abordagens amplas, filmes que se debruçaram sobre a bossa nova e até o forró. Poucos, entretanto, alcançam a excelência técnica e temática da estreia "Palavra (En)Cantada".
A fita é um projeto que teve origem na pesquisa do produtor Marcio Debellian, coautor do roteiro, que convidou a cineasta Helena Solberg (de "Vida de Menina" e "Carmen Miranda - Bananas is my business") para assinar a direção. A dupla construiu uma abordagem consistente a partir da proposta de examinar a poética do cancioneiro popular, confrontado compositores que transitam entre os dois mundos, da poesia e da música.
"Palavra (En)Cantada" traz muita música, mas principalmente falas. Vozes que avaliam suas próprias composições, contam casos de bastidores ou até mesmo falam de uma maneira mais ampla sobre os destinos da arte. Tom Zé, sempre com falas tão sérias quanto irônicas, diz coisas desconcertantes. Lembra que música foi um dia apenas algo para a elevação do espírito e que hoje toca a própria epiderme com batidas potentes. Chico Buarque, outro que contribui com falas das mais instigantes, chega a cogitar sobre a possível morte da canção. Sem lamentos, reflete sobre as consequências tecnológicas se impondo de uma maneira a substituir um jeito antigo de se compor e cantar. O filme traz ainda alegorias luminosas, o pernambucano Lenine fala de fonética, brinca com os sons das palavras. Seu conterrâneo Lirinha, do grupo Cordel do Fogo Encantado, trata também sobre forma, revelando a sua origem como compositor, inspirado na rima e, progressivamente, liberto dela. Muitos tratam da poesia propriamente dita, como Martinho da Vila, que conta como, nas suas palavras, converteu um poema em samba-enredo. O documentário também tem o cuidado de trazer falas de poetas, que tiveram seus trabalhos musicados. A presença de Antonio Cícero, por exemplo, é reveladora. Da mesma maneira, como José Miguel Wisnik enche o debate de luz e linhas de pensamento. O rol de depoimentos traz ainda Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, BNegão, Jorge Mautner, Maria Bethânia, Paulo César Pinheiro, Zélia Duncan e outros expoentes do cancioneiro popular não só falando, mas cantando, a partir de gravações intimistas, domésticas, colhidas pelas lentes dos fotógrafos Luís Abramo e Pedro Farkas.
A fita se mostra também reveladora ao trazer imagens raras da poetisa Hilda Hilst (pouco antes de sua morte) ao lado de Zeca Baleiro dando seus primeiros passos rumo a composição popular. Vinicius de Morais, Dorival Caymmi e Tom Jobim são evocados em preciosas cenas de arquivo e até, gente ainda viva, como Caetano Veloso, ressurge pinçada de um outro tempo. No caso do santo-amarense, em momento histórico, nos anos 1960.A montagem fluente garante uma impressionante unidade ao material, que conta ainda com uma primorosa finalização técnica. Som e imagem a serviço da palavra, da palavra cantada, da música e das ideias, constituindo um discurso-tese coerente e, para fazer jus ao título, “(en)cantador".
Por João Carlos Sampaio.

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